Saturday, October 27, 2012

Brasil: uma alegoria positiva para o mundo


O canarinho finalmente aprendeu a lição, velha conhecida das clínicas de reabilitação, que admitir que se tem um problema é o primeiro passo rumo a recuperação. Não só aprendeu, mas pôs em prática, abandonando a velha canção brasileirinha da democracia racial para enfrentar o racismo incrustrado nas estruturas do país.

A ciência nos ensinou que a mistura de certos elementos químicos pode resultar em soluções perigosamente voláteis. Assim, também pode ocorrer com etnias diferentes dividindo o mesmo espaço físico, a exemplo do regime nazista instalado na Alemanha, onde os direitos dos judeus foram paulatinamente reduzidos, até que uma trágica e radical resolução final foi imposta a todo um povo.

Felizmente, no caldeirão verde e amarelo, os elementos químicos ali atirados não resultaram numa mistura tragicamente volátil. Ao contrário, se considerarmos os desastrosos exemplos da história como o Nazismo ou mesmo o Aphartaid, pode-se dizer que a mistura étnica no Brasil ocorreu de uma forma menos traumatizante para todos os “elementos químicos” envolvidos.

Contudo, não se quer dizer que a mistura étnica aqui ocorrida foi pacífica. Longe disso. A história brasileira é marcada pela cruel violência física e psicológica a que foi submetida à população negra e indígena, a exemplo dos longos castigos corporais sofridos pelos escravos negros, os incontáveis estupros suportados pelas mucamas de leite, e, finalmente, a cristianização imposta pelos jesuítas que levaram tantos índios a loucura.

Apesar disso, anos após a publicação da Lei Áurea, surgiu no início do século XX o mito da democracia racial vigente no país da seleção canarinha. Este discurso, pregado por inúmeros intelectuais da época, bem como pelo próprio governo brasileiro, queria fazer crer, baseado inexistência de impedimentos legais à ascensão social de negros ou índios, que vivíamos em perfeita harmonia, sendo inconcebível a ideia do racismo na sociedade brasileira.

Todavia, bastava examinar a infeliz realidade vivida pelas minorias étnicas, as quais se encontravam a quilômetros de alcançar qualquer alto posto do governo, que se queria acreditar, por pura vaidade, num mito. Em verdade, vivemos por muito tempo em negação, como se a sociedade brasileira tivesse preconceito de conceber algo tão nojento como o racismo incrustado nas instituições de um país orgulhosamente conhecido por sua rica diversidade étnica.  

Felizmente, apesar de alguns cidadãos ainda negarem, o Estado Brasileiro abandonou a negação, reconhecendo, enfim, que algo está seriamente errado, quando a esmagadora maioria da população, que coincidentemente pertence a uma minoria étnica, vive marginalizada, fora das universidades públicas, e, portanto, com poucas perspectivas de ascensão social.

Este reconhecimento veio acompanhado de várias medidas implementadas a partir do governo Lula, a fim de mudar essa realidade, a exemplo das cotas adotadas nas universidades públicas do país, ações afirmativas, endurecimento das penas de certos crimes quando relacionados às etnias, a própria criminalização do racismo, a criação de órgãos governamentais para a promoção da igualdade étnica, como a Secretaria de Igualdade Racial, etc.

Dessa forma, hoje podemos dizer orgulhosamente que existe racismo no país marcado pela diversidade étnica, porque ao abrirmos os olhos para o problema, demos os primeiros passos na longa estrada para recuperação desse mal que aflige, a tempo demais, a humanidade.

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