O canarinho finalmente aprendeu a
lição, velha conhecida das clínicas de reabilitação, que admitir que se tem um
problema é o primeiro passo rumo a recuperação. Não só aprendeu, mas pôs em
prática, abandonando a velha canção brasileirinha da democracia racial para
enfrentar o racismo incrustrado nas estruturas do país.
A ciência nos ensinou que a mistura
de certos elementos químicos pode resultar em soluções perigosamente voláteis.
Assim, também pode ocorrer com etnias diferentes dividindo o mesmo espaço
físico, a exemplo do regime nazista instalado na Alemanha, onde os direitos dos
judeus foram paulatinamente reduzidos, até que uma trágica e radical resolução
final foi imposta a todo um povo.
Felizmente, no caldeirão verde e
amarelo, os elementos químicos ali atirados não resultaram numa mistura
tragicamente volátil. Ao contrário, se considerarmos os desastrosos exemplos da
história como o Nazismo ou mesmo o Aphartaid, pode-se dizer que a mistura
étnica no Brasil ocorreu de uma forma menos traumatizante para todos os
“elementos químicos” envolvidos.
Contudo, não se quer dizer que a
mistura étnica aqui ocorrida foi pacífica. Longe disso. A história brasileira é
marcada pela cruel violência física e psicológica a que foi submetida à
população negra e indígena, a exemplo dos longos castigos corporais sofridos
pelos escravos negros, os incontáveis estupros suportados pelas mucamas de
leite, e, finalmente, a cristianização imposta pelos jesuítas que levaram
tantos índios a loucura.
Apesar disso, anos após a publicação
da Lei Áurea, surgiu no início do século XX o mito da democracia racial vigente
no país da seleção canarinha. Este discurso, pregado por inúmeros intelectuais
da época, bem como pelo próprio governo brasileiro, queria fazer crer, baseado
inexistência de impedimentos legais à ascensão social de negros ou índios, que
vivíamos em perfeita harmonia, sendo inconcebível a ideia do racismo na
sociedade brasileira.
Todavia, bastava examinar a infeliz
realidade vivida pelas minorias étnicas, as quais se encontravam a quilômetros
de alcançar qualquer alto posto do governo, que se queria acreditar, por pura
vaidade, num mito. Em verdade, vivemos por muito tempo em negação, como se a
sociedade brasileira tivesse preconceito de conceber algo tão nojento como o
racismo incrustado nas instituições de um país orgulhosamente conhecido por
sua rica diversidade étnica.
Felizmente, apesar de alguns cidadãos
ainda negarem, o Estado Brasileiro abandonou a negação, reconhecendo, enfim, que
algo está seriamente errado, quando a esmagadora maioria da população, que
coincidentemente pertence a uma minoria étnica, vive marginalizada, fora das
universidades públicas, e, portanto, com poucas perspectivas de ascensão
social.
Este reconhecimento veio acompanhado
de várias medidas implementadas a partir do governo Lula, a fim de mudar essa
realidade, a exemplo das cotas adotadas nas universidades públicas do país,
ações afirmativas, endurecimento das penas de certos crimes quando relacionados
às etnias, a própria criminalização do racismo, a criação de órgãos
governamentais para a promoção da igualdade étnica, como a Secretaria de Igualdade
Racial, etc.
Dessa forma, hoje podemos dizer orgulhosamente
que existe racismo no país marcado pela diversidade étnica, porque ao abrirmos
os olhos para o problema, demos os primeiros passos na longa estrada para
recuperação desse mal que aflige, a tempo demais, a humanidade.